O primeiro [de muitos eu espero] conto feito juntamente com uma poeta da envergadura da Josi.
Camila não era vaidosa, mas naquele dia parou em frente ao espelho, sentou sobre a cama e passou a olhar para seus próprios olhos. Notou que ela nunca parou realmente pra olhar para eles e nem para qualquer outro lugar de seu corpo. Passou, então, a procurar desesperadamente qualquer mancha, qualquer sinal que pudesse haver, em tudo, desde os pés até os cotovelos.
Não era curiosidade, era algo muito além: era como uma descoberta. Uma novidade que estava diante de seus olhos, chegou até olhar como se fosse outra pessoa, um corpo completamente desconhecido e estranhamente achou bonito o que viu, mas não era uma beleza manjada, daquelas que via na televisão, era uma beleza de jovem, simplesmente. Uma beleza natural livre de estereótipos e imposições da sociedade ou como as flores do campo que o vento tira para dançar.
Tomada por um súbito, com as pálpebras cerradas de paixão, passou a mãos pelos cabelos e com a tesoura na outra mão, picotou os fios que ficaram não completamente uniformes. Sentiu uma forma cubista em pessoa, como se tudo desmontasse para ser refeito de uma forma totalmente nova.
Colocou os fios dentro de um envelope, com a caneta velha da avó, escreveu de forma decidida o nome do destinatário: Carlos. Nome para o qual tinha desejo há tempos de voltar a escrever, passou a ponta dos dedos na escrita desse nome que sempre significou muito.
Lembrou da cena de quando era criança, e Carlos aos oito anos lhe pediu uma mecha do seu cabelo e ela lhe negou, depois de tanto tempo, como estaria Carlos, um homem de certo. Será que ele entenderia a carta? Será que ele sequer lembraria de Camila? Ou já teria abortado as lembranças de tudo o que viveram?
Passaram-se semanas, todo dia Camila ia até a caixa de correio angustiada, mas não havia nada, nem sequer correspondências de loja para lhe causar falsas esperanças.Ela começou a se achar uma tola por pensar que depois de tantos anos ela poderia reascender uma chama que foi soprada violentamente por ela própria.
Teria ele se mudado? Estaria casado? Morto? Meu Deus, se estivesse morto? Nunca saberia que ela resolveu lhe doar as mechas suplicadas no passado. Começou a definhar em devaneios incansáveis em busca de alguma resposta pra tudo isso, era um deletério que a consumia a distância.
Até que sua mãe a abordou na sala, já estranhando por a ver de toca a semana toda, lhe entregou um pacote ainda mais incógnito. Um pacote pardo envolto em uma fita dourada como aquelas de laços natalinos, o coração de Camila se encheu de todos os sentimentos que lhe eram conhecidos, não havia como descrever em uma só palavra tudo o que sentia ao tocar naquele pacote. Outra leva de sensações lhe açoitaram, mas dessa vez ela podia nomear seus sentimentos: tristeza, saudade, arrependimento, angustia, um aperto no peito desses que parecem ser derradeiro. Conseguiu driblar a mãe e se refugiou no quarto.
Quando abriu o pacote descobriu uma foto de uma criança, um menino, Carlos, igualzinho era quando o viu pela última vez, aos oito anos, mas com a cabeça pelada. Não podia ser só aquilo. Virou a foto e leu: "Eu não sei quem você é, mas meu filho morreu aos oito anos de leucemia, se o conhece, reze por ele, que ele esteja em paz".
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