sábado, 31 de outubro de 2009

Sobre palavras de terceiros

Excerto belíssimo de uma peça declamado admirávelmente por Dan Stulbach no filme 'Tempos de Paz'



Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.

E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?

Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?

Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?

Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?

Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obrada natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?

Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?"

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I) de Pedro Calderón de la Barca

sábado, 3 de outubro de 2009

Adeus Você

Malas em punho com todos meus pertences de urgência, os restante depois encarrego alguém deles. Enquanto os colocava na mala cada um parecia me contar uma história sobre nós: um café em Paris, a ida ao Louvre, o passeio em Liverpol, a noite em Hong Kong ... tudo se fazia retrospectiva. Achei até os poemas do colegial, aqueles que você me declamava no parque quando cabulávamos aula de Educação Física, junto deles estava as embalagens de chocolate e os rótulos e rolhas de vinhos nas incontáveis noites que fugíamos de casa. Quando fui descer as malas junto com o pó veio a caixa de fotografias da militância na universidade, aquelas reuniões eram um máximo, foi lá que descobrimos o quanto queríamos mudar o mundo lembra?
É incrível como só os momentos bons me vem em mente agora, chega até a ser patético eu me recordar de coisas como essas e deixar para trás os lençóis de outras paixões e as xícaras com batom que não é meu, justo eu que nunca neguei as nossas aventuras repentinas. Lembra quando nossos pais nos julgaram loucos por partir sem mais nem menos para a Europa? E agente com aquela loucura juvenil de colocar só o que era necessário na mala e partir para viver de amor. Pego as chaves, olho uma última vez para o apartamento com a decoração que nós mesmo fizemos, é tarde demais para qualquer perdão, meu coração já se cansou tanto que quase não bate mais.
Nós que vivemos tudo isso, quem diria separar as malas, justo agora que o número de malas seria três.