quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MIXÓRDIA

Nós criamos um retrato rápido e sem muitos detalhes das pessoas, feito aquelas fotos inesperadas que acabam saindo desfocadas. E eu me via assim até hoje ao fitar o espelho após o banho.
O vapor estava impregnado no espelho, assim como a cegueira se manteve inconscientemente em mim. Passei minhas mãos no espelho afim de retirar o excesso de vapor, não sem antes me pegar com o ar infantil ou romântico com as pontas dos dedos a passar pelo espelho, feito giz na lousa. Escrevi cada curva de cada letra em busca de uma perfeição doente, já que nunca achei na vida, deslizei meus dedos como se estivesse acariciando o corpo nú do Felipe nas noites que acabavamos fumando e bebendo ao releno ou então nas poucas vezes que tive meu pequenino Carlos nos meus braços e passava meus dedos sobre seu nariz protuberante como o meu e os cabelos rasos como o do pai.
Pronto, após longo turbilhão de reminiscências escrevi: MIXÓRDIA. E digo com a certeza de quem sabe que a morte lhe acompanha sempre: essa palavra resume minha famigerada existência.
NÃO, NÃO, NÃO ... Eu não quero que essa palavra me traga a inóspita cena de seus corpos naquele chão frio e nojento, não quero lembrar do cigarro e da mamadeira no chão, do meu corpo intacto posto em cima do deles pintado de sangue inocente e minh'alma em frangalhos, eu não quero aceitar fatalidade alguma ou essas notícias de jornais que só incomodam a quem sente de fato a dor, eu não quero aceitar o consolo seja ele qual for. Quero só aquela dose cavalar de remédios e a cama que continua com os mesmos lençóis de margaridas e o ursinho de pelúcia que compramos nas férias de verão.

3 comentários:

Dayane Soares Vicente disse...

Eu percebi: Leio seus textos, seja sobre qualquer assunto, ou o que for.. Um sorriso breve e quase transparente ocupam-se de meus lábios.

Parabéns!

Tati Tosta disse...

'fiquei sem som nos lábios... E o sorriso pendurado na ponta dos dedos'

Parabéns

Ches. disse...

Que lindo!
No começo aquela sensação de calma de quem vaga em pensamentos e depois um turbilhão de inconformidade invade finalizando com a doçura de lembranças...
Lindo!