quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MIXÓRDIA

Nós criamos um retrato rápido e sem muitos detalhes das pessoas, feito aquelas fotos inesperadas que acabam saindo desfocadas. E eu me via assim até hoje ao fitar o espelho após o banho.
O vapor estava impregnado no espelho, assim como a cegueira se manteve inconscientemente em mim. Passei minhas mãos no espelho afim de retirar o excesso de vapor, não sem antes me pegar com o ar infantil ou romântico com as pontas dos dedos a passar pelo espelho, feito giz na lousa. Escrevi cada curva de cada letra em busca de uma perfeição doente, já que nunca achei na vida, deslizei meus dedos como se estivesse acariciando o corpo nú do Felipe nas noites que acabavamos fumando e bebendo ao releno ou então nas poucas vezes que tive meu pequenino Carlos nos meus braços e passava meus dedos sobre seu nariz protuberante como o meu e os cabelos rasos como o do pai.
Pronto, após longo turbilhão de reminiscências escrevi: MIXÓRDIA. E digo com a certeza de quem sabe que a morte lhe acompanha sempre: essa palavra resume minha famigerada existência.
NÃO, NÃO, NÃO ... Eu não quero que essa palavra me traga a inóspita cena de seus corpos naquele chão frio e nojento, não quero lembrar do cigarro e da mamadeira no chão, do meu corpo intacto posto em cima do deles pintado de sangue inocente e minh'alma em frangalhos, eu não quero aceitar fatalidade alguma ou essas notícias de jornais que só incomodam a quem sente de fato a dor, eu não quero aceitar o consolo seja ele qual for. Quero só aquela dose cavalar de remédios e a cama que continua com os mesmos lençóis de margaridas e o ursinho de pelúcia que compramos nas férias de verão.

sábado, 31 de outubro de 2009

Sobre palavras de terceiros

Excerto belíssimo de uma peça declamado admirávelmente por Dan Stulbach no filme 'Tempos de Paz'



Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.

E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?

Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?

Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?

Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?

Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obrada natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?

Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?"

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I) de Pedro Calderón de la Barca

sábado, 3 de outubro de 2009

Adeus Você

Malas em punho com todos meus pertences de urgência, os restante depois encarrego alguém deles. Enquanto os colocava na mala cada um parecia me contar uma história sobre nós: um café em Paris, a ida ao Louvre, o passeio em Liverpol, a noite em Hong Kong ... tudo se fazia retrospectiva. Achei até os poemas do colegial, aqueles que você me declamava no parque quando cabulávamos aula de Educação Física, junto deles estava as embalagens de chocolate e os rótulos e rolhas de vinhos nas incontáveis noites que fugíamos de casa. Quando fui descer as malas junto com o pó veio a caixa de fotografias da militância na universidade, aquelas reuniões eram um máximo, foi lá que descobrimos o quanto queríamos mudar o mundo lembra?
É incrível como só os momentos bons me vem em mente agora, chega até a ser patético eu me recordar de coisas como essas e deixar para trás os lençóis de outras paixões e as xícaras com batom que não é meu, justo eu que nunca neguei as nossas aventuras repentinas. Lembra quando nossos pais nos julgaram loucos por partir sem mais nem menos para a Europa? E agente com aquela loucura juvenil de colocar só o que era necessário na mala e partir para viver de amor. Pego as chaves, olho uma última vez para o apartamento com a decoração que nós mesmo fizemos, é tarde demais para qualquer perdão, meu coração já se cansou tanto que quase não bate mais.
Nós que vivemos tudo isso, quem diria separar as malas, justo agora que o número de malas seria três.

domingo, 27 de setembro de 2009

120 minutos de encanto

Inspirado na deliciosa noite de ontem.

Subo as escadas e me deparo com as cortinas e as poltronas prontas para aconchegarem os amantes da música e da interprete que se seguirá. As pessoas vão chegando aos montes, aos poucos, sozinhas. Vagarosamente, frenéticamente. Bem trajadas, de ergumentária simples. Entoa a canção. Olhares atentos, risos, troca de palavras ao lado. A canção que se segue! Ah que bela canção, para uns nostalgia, para outros diz tudo do futuro, outros tantos se lembram do amor do passado, um amigo distanciado. Uma música que embala tantas vidas ainda vivas e outras não mais pungentes. O aroma exalado é singular e nunca igual, são combinações de perfumes, bem como de personalidades, de estilos ... são eternos agrupamentos por um mesmo motivo, mas nunca uma mesma interpretação, cada qual traz ao seu modo a linguagem expressada a frente das coxias e dos olhares da platéia. São Marias, são Josés acompanhados de sobrenomes esplendorosos ou tão humildes como o meu, são abismos sociais sentados lado a lado.
Lá não tem papel, não tem pudor, todos são cantores, atores ... tudo é permitido ser. Lá se perde e se encontra. Lá se busca o fio da vida e o conecta com todos os tempos do verbo ser.


Está tudo logo ali, impregnado nas paredes nas paredes do teatro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Solidão

A luz apagou
A lua fugiu
O céu não clareou
A estrela não vai brilhar
A festa não haverá
Acabou a vida de marajá
Ninguém vai te querer
Você não vai convencer
Não há vagas para você
Nem sua foto na tevê
Nem os móveis vão ficar
A bebida vai acabar
Os livros vão desaparecer
As músicas vão enteadiar
As palavras vão vagar
A tortura não vai ceder
O relógio vai estagnar
As reminiscências vão entoar
Seu nome vai desaparecer
Só te resta ser só do passado
E dos seus versos ser escravo

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Primaveras da poetinha

"E me Perco, Me Encontro. Perco-me outra vez
.
Demoro Agora a achar-me. Mas Sinto ainda que de alguma forma continuo aqui! Simples, Singela! Pura e Completa! Sem Marcas!
.
Eu Flor e Eu Giz .Eu Flor de Giz.. Pra Não Haver Notoriedades"
(Tatiane Tosta Alencar)




Para escrever, desenhar ou falar sobre você não é preciso ser explícito. Se fosse para te definir em uma palavra eu arriscaria: observadora. Portanto assim que pensei em tecer [como você mesma diz] umas linhas em prol de homenagem eu sabia que quanto mais nas entrelinhas eu deixasse meu afeto, melhor seria, pois é assim que você vai marcando a vida das pessoas: entrando, sentando e com seu silênio fazendo poema até dos momentos mais triviais ao seu redor.
Não sei muito sobre sua vida, sua família, seus planos de futuro, mas eu sei que você não tira suas vestes de poesia em momento algum, sei também que sua alegria se encontra na simplicidade e que você sabe amar a vida e história do outro sem nutrir inveja. Você diz o que pensa de imediato, e muitas vezes te confesso que não gostei do que ouvi, assim como outras discordei de ti. Confesso mais ainda que há pouco tempo conquistei a sabedoria de ver e reparar na sua essência que não posso negar, é bem diferente das encontradas por ai, antes eu não entendia esse seu silêncio, seu jeito recatado, sua ausência de palavras ditas e em contraponto rios e rios de palavras escritas. Hoje eu sei que se assim não fosse ou se houvesse qualquer detalhe diferente jamais seria a flor de giz que eu conheço.
Não almejo ser sua melhor amiga, nem que você dedique inúmeras linhas a mim, pois talvez eu não seja tão reciproca quanto você merece. Quero permanecer entendendo seu modo de ser, superando nossas divergências e aprendendo um pouco mais da arte de conviver com alguém como você.
Muitas primaveras, palavras [de todas as maneiras] e que a vida lhe presentie com tudo que for possível para dar sequência a sua felicidade.
Digo que te amo, mas fico em dúvida do sentimento que nutro por você, talvez pelas diferenças, pelo seu jeito dispar e pelos encontros que a vida nos deu e ainda reserva eu ainda não sei como dizer sobre qualquer sentimento novo ou antigo que seja. Por hora fico com esse que me parece sincero: te amo!



terça-feira, 1 de setembro de 2009

Insensatez Noturna




Me sentei, arrumei a cadeira, quando me ausenta a paciência a cadeira me parece insuportável, analiso as teclas, dedilho feito instrumento, apesar de sabê-las de cor, hoje vou admirá-las em cada mero casamento com a ponta dos meus dedos, porque não olhá-las afinal? Porque menosprezá-las e exercer um ludismo certas vezes em que me encontro atormentada pelos pensamentos ferrenhos que me vem, elas não tem culpa de serem feitas assim, de assim estarem e de por mim serem tocadas muitas vezes violentamente.

ssdfghjnkm,çl.ç~~]/wqreyu - dedilhando feito piano! Sempre quis tocar, nunca fui atrás de aprender.

Ajeito o cabelo, hmmm, dessa forma não, me caem nos olhos e me tiram o sossego de admirar teclas casadas com dedos., os jogo para trás. Movimento o pescoço, em vão, a inspiração não virá com a auto flagelação nem tampouco punindo as teclas.

Estralar dedos, isso me alucina _______ mas faltou uma palavra aqui, quero deixar mais explicito o que sinto, eu peco nisso sabe? Em querer deixar tudo explícito, com sentido, amarrado, de que me adianta sempre a coerência? Porque não um dadaísmo de vez em quando? Que mal há nisso? Nonsense me soa tão bonito, porque diabos não ser assim?

Pausa para respirar bem fundo. Não me convenço de que nada do que eu fizer trará você de volta. É ridículo isso, mas é verdade! Me sinto uma daquelas menininhas que fazem coração no caderno e guarda papel de bombom.

Esse ranger da cadeira me irrita por completo, do dedinho do pé até o último fio de cabelo.
Me irrita feito você, porque você faz isso comigo? E até quando? Já não sei mais se é a falta de inspiração ou a demasia dela ou se é você mesmo que me transtorna com seus dizeres amorosos implícitos, eu não quero me sucumbir a eles, tenho orgulho e além do mais você tem seus outros amores tão inconstantes quanto esse céu que nós cobre.

Chega, para mim chega!
Chega de palavras, chega de você, chega de tanto dedilhar, chega de mim!

Afinal no final sou só eu, a cerveja da geladeira e as flores que você insiste em dizer que carrego no cabelo.