quarta-feira, 17 de março de 2010

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

Despretencioso

E de inquieta que vou, por vezes penso não ser mais incessante.

Eu fui embora e quero muito poder voltar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Talvez uma ode

Palavras jogadas, café na xícara, pensamento atordoado, unhas roídas, os pés e lábios aflitos, planos postos sobre o papel, amassados e jogados, planos reescritos, grifados, em letras garrafais, o olhar atento, os lábios cerrados,o pensamento interrompido pela obrigação, a saudade, a alegria, a ansiedade ou qualquer outro sentimento sem nome ...
Mais um ano para tentar dar nome a tudo isso que se passa aqui.

Olha lá quem vem e quem se foi

Rompi as tradições dos meus anos anteiores: não registrei aqui meu adeus a 2009. Eu até que pensei em milhares de coisas a dizer, pensei em prosa, poesia e até em um conjunto de palavras sem noção, pensei em imagens, paisagens e as saudades do que passou. Pensei muito, escrevi nada. Talvez agora eu consiga:
2009 foi um ano ... Não sei realmente que adjetivo atribuir, talvez um ano misto, misto me soa feio, mas não sei ainda que outra palavra atribuir. já pensei em dizer que 2009 foi o ano das palavras, e foi, mas também foi ano de alguns adeus doloridos, de abraços falsos, de novos amigos, foi o ano inteiro com meu amor, um ano que ultrapassei o abismo da raiva e passei para a querer conhecer melhor alguém que eu tanto detestava e nem sabia dizer o porquê. Foi um ano de culpa, de medo do atraso, de fazer 19 anos e sentir um leve peso da vida nas costas. Foi um ano de olhar para trás e ter a sutil certeza de que talvez foi um dos melhores anos, salvo uma correção aqui e um arrependimento acolá. Foi um ano que eu odiei meu trabalho e procurei no estudo a salvação para essa prisão diária e ainda estou esperando minha alforria, foi um ano que descobri alguém e amei no primeiro momento e agora eu disse a ela que quando sentir pena de quem se tornou não vai mais haver amor. Foi um ano (não me importo de repetir e ir contra a corrente gramatical) em que eu afirmei mais uma vez quem é realmente meu amigo. Foi um ano de tanta gente, tanto riso, outro tanto equivalente de choro, tantas fotos espontâneas, tanto chocolate, tantas bebedeiras. Foi um ano de dor alheia, sofri com cada amigo e também reconstrui a minha maneira cada pedacinho do coração deles, afim de nunca mais se quebrar e nem ficar longe do meu.
Eu poderia discursar sobre 2009 o ano inteiro de 2010, lembrar dos pormenores, sofrer com algumas ansiedades e medos que inevitavelmente trouxe para 2010, mas hoje eu escolhi deixar o ano com as palavras daqui, não deixá-lo todo, nem sequer esquecê-lo, afinal 2009 faz parte do que sou em 2010 e serei em 2011 e eu coloco tanta esperança em 2010, tanta, que ele nem imagina o quanto quero que ele dê certo.
Hoje eu só quero viver 2010 sem culpa, na paz, na eterna sensação de recomeço, ano após ano. E agradecer a todos vocês: os que vejo todo dia, os que vi uma única vez no ano, os que não estão mais aqui, os que falei uma única vez no msn. Somei 2009 a vocês e ficou a experiência de muito mais que só um ano.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MIXÓRDIA

Nós criamos um retrato rápido e sem muitos detalhes das pessoas, feito aquelas fotos inesperadas que acabam saindo desfocadas. E eu me via assim até hoje ao fitar o espelho após o banho.
O vapor estava impregnado no espelho, assim como a cegueira se manteve inconscientemente em mim. Passei minhas mãos no espelho afim de retirar o excesso de vapor, não sem antes me pegar com o ar infantil ou romântico com as pontas dos dedos a passar pelo espelho, feito giz na lousa. Escrevi cada curva de cada letra em busca de uma perfeição doente, já que nunca achei na vida, deslizei meus dedos como se estivesse acariciando o corpo nú do Felipe nas noites que acabavamos fumando e bebendo ao releno ou então nas poucas vezes que tive meu pequenino Carlos nos meus braços e passava meus dedos sobre seu nariz protuberante como o meu e os cabelos rasos como o do pai.
Pronto, após longo turbilhão de reminiscências escrevi: MIXÓRDIA. E digo com a certeza de quem sabe que a morte lhe acompanha sempre: essa palavra resume minha famigerada existência.
NÃO, NÃO, NÃO ... Eu não quero que essa palavra me traga a inóspita cena de seus corpos naquele chão frio e nojento, não quero lembrar do cigarro e da mamadeira no chão, do meu corpo intacto posto em cima do deles pintado de sangue inocente e minh'alma em frangalhos, eu não quero aceitar fatalidade alguma ou essas notícias de jornais que só incomodam a quem sente de fato a dor, eu não quero aceitar o consolo seja ele qual for. Quero só aquela dose cavalar de remédios e a cama que continua com os mesmos lençóis de margaridas e o ursinho de pelúcia que compramos nas férias de verão.

sábado, 31 de outubro de 2009

Sobre palavras de terceiros

Excerto belíssimo de uma peça declamado admirávelmente por Dan Stulbach no filme 'Tempos de Paz'



Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.

E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?

Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?

Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?

Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?

Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obrada natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?

Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?"

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I) de Pedro Calderón de la Barca

sábado, 3 de outubro de 2009

Adeus Você

Malas em punho com todos meus pertences de urgência, os restante depois encarrego alguém deles. Enquanto os colocava na mala cada um parecia me contar uma história sobre nós: um café em Paris, a ida ao Louvre, o passeio em Liverpol, a noite em Hong Kong ... tudo se fazia retrospectiva. Achei até os poemas do colegial, aqueles que você me declamava no parque quando cabulávamos aula de Educação Física, junto deles estava as embalagens de chocolate e os rótulos e rolhas de vinhos nas incontáveis noites que fugíamos de casa. Quando fui descer as malas junto com o pó veio a caixa de fotografias da militância na universidade, aquelas reuniões eram um máximo, foi lá que descobrimos o quanto queríamos mudar o mundo lembra?
É incrível como só os momentos bons me vem em mente agora, chega até a ser patético eu me recordar de coisas como essas e deixar para trás os lençóis de outras paixões e as xícaras com batom que não é meu, justo eu que nunca neguei as nossas aventuras repentinas. Lembra quando nossos pais nos julgaram loucos por partir sem mais nem menos para a Europa? E agente com aquela loucura juvenil de colocar só o que era necessário na mala e partir para viver de amor. Pego as chaves, olho uma última vez para o apartamento com a decoração que nós mesmo fizemos, é tarde demais para qualquer perdão, meu coração já se cansou tanto que quase não bate mais.
Nós que vivemos tudo isso, quem diria separar as malas, justo agora que o número de malas seria três.