segunda-feira, 28 de julho de 2008

Todos eles e você e até ele
Que de nada ainda sabe
Permancem hostis
A toda essa complexidade
Despreocupados
Julgando minha insanidade
Com olhos de suas moralidades
Desprezando a subjetividade
Eu dispenso essa previsão
Do que nem há de ser ainda
E me reservo nas minhas possibilidades
Maldades e sensibilidade.

sábado, 26 de julho de 2008

Migalhas de um maltrapilho


"Numa noite longa, dois maltrapilhos se reúnem para contar moedas, estão fujindo cada um de uma coisa particular, mas em suas solidões individuais sentem a força de dois solitários unidos"

Argemiro (J) : Você trouxe tudo?
Severino (L) : Depende do que você considera tudo
Argemiro: Seu burro! tudo que precisamos..ora
Severino: Nem sei mais do que preciso
Argemiro: Isso é por causa dela?
Severino: É muito por causa dela, mas é também da culpa pela outra, da vida, da morte e da miséria que eu sinto aqui em mim
Argemiro: Miséria, Miséria é o que sua mãe pariu
Severino: Talvez possamos por fim nessa desgraçada miséria que ocupa em vão um espaço nesse mundo
Argemiro: Você qué ocupar ainda mais espaço no mundo? (levantando a camisa de Severino para mostrar a barriga saliente)
Severino: Não é do físico que eu falo seu ignorante, olhe a sua volta (gira o corpo de Argemiro)
Argemiro: Tudo que vejo a minha volta é... (bufa com desânimo) é você!
Severino: Mas é muito mais que isso, não pense só em corpos, pense em ar, em raios solares, na imundice a que nos sujeitamos, em tudo, tudo é alguma coisa (olha ao redor em estado de fascínio)
Argemiro: Você bebeu todo o conhaque?
Severino: Não tô bêbado, só tô vendo as coisas diferentes, não sei o que se passa aqui na minha cachola
Argemiro: Ou é miopia ou é retardo..ou (ri descontrolado mas curto) os dois!
Severino: Que tapado, não dá pra você uma vez nessa desgraça de vida me entender? No fundo você pensa assim também, compartilhamos de alguma coisa juntos, temos um elo entre nós.
Argemiro: O que você propõe? uma revolução? uma guerra civil, uma ceita, a morte?
Severino: Eu não sei o que propor sozinho, eu não consigo colocar as minhas idéias em ordem, e você o que propõe?
Argemiro: Eu proponho agente se casar... (faz biquinho de beijo pro Severino)
Severino: Cê tá me zuando né? Tenta pegar a essência do que eu disse sem irônia por favor
Argemiro: Pegar essência é coisa de frutinha né...

(momento de silêncio)


Argemiro: e quem cala, consente!

Severino: Me calei por perceber que você não leva a sério nada do que eu falo, você só tem a mim ... e eu a você!

[Larissa Tavares e Joseane Nogaroto]

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Caminhada tortuosa

Agoniada
Ofegante
Falta oxigênio
Formigamento corporal
Suor entre os poros
Madeixas ao vento

Desce perna, ergue perna
Com mais ritmo, corre, corre, corre

Tortura mental
Formas sem encaixe
Overdose de pensamentos
Cores desnexadas e fortes
Batimento acelerado

Lentamente, despretenciosa
Menos ritmo, respirando, buscando forças

Calmaria
Fora da órbita
Segmento sem alcance
Labirinto
Distinto
Cadê o precipicio ?
Doce ilusão
Cheguei em casa.

Excuse-me

Se te deixei sem minha voz,
Ou sem a tua
Sabes lá, qual maior falta faz
Mas não pode
Dizer-me que por um segundo
Não te amei em tudo
Não te desejei inteiro
Quando galanteiro
Ou quando mudo

[Joseane Nogaroto]

sábado, 19 de julho de 2008


'Deixa eu decidir se é cedo ou tarde
Espere eu considerar ...

Uhh.. Ah, ah, aaaah
Uhh.. Ah, ah, aaaah'

sábado, 12 de julho de 2008

Desgastante

A música cansou de propagar
E as vertentes do sim e não já não querer mais continuar
Outra inspiração foi conquistada
Nostalgia já vai saindo pelas entrelinhas
A prosa e poesia realista habitam em mim
As certezas querem se entrelaçar
E repelir toda essa ambigüidade
Que ora enoja e outra encanta
E traz um eu não estimado
Pensamentos obscuros, libidinosos, avassaladores
Incansavelmente ramificados
Subdivididos porcamente e desnexados
Demasiadamente deserto e incerto
Quem derá ouvesse uma constância
Entretanto tudo irá embaralhar
Seja no nascer do sol, ou ao seu pôr
Seja em lençóis, em becos, em solo esverdeado
Em menções ou até naquelas canções
O outrora vai voltar e alinhar a incerteza
Decidido, indeciso
Estruturado, desestruturado
Continuamente impoluto
Pra mim, pra ele (a) e pra você

domingo, 6 de julho de 2008

CAPÍTULO IX / A ÓPERA



Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava.
Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as
injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade.
Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma
princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que
ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes.
Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
--A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
--Mas, meu caro Marcolini...
--Quê...
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no
conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
--Mas, Senhor...
--Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia,
consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
--Ouvi agora alguns ensaios!
--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir
contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a
colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a
música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc.
Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

[Dom Casmurro - Machado de Assis]