segunda-feira, 4 de junho de 2012

Entrou e revirou tudo o que podia no pouco tempo que lhe fora concedido// Deixou o quarto revirado, as louças quebradas, os discos no chão e os livros amassados. // Polpou a caixa escondida no fundo do guarda roupa, por não a ter encontrado// Não queria causar tanto estrago, só queria ter uma lembrança para chamar de sua, mesmo que já fosse portada por outro. Queria qualquer coisa que a tirasse do estado de tédio e languidez a que seus desafortunados dias estavam fadados.// Foi-se// Desconhece-se por onde andou antes da depredação ou depois da mesma// Provocou a catarse em quadros do tempo, frases antigas proferidas no escuro e em certas sentimentalidades que estavam guardadas na caixa que permanecia intacta, ao sabor do tempo, sobrevivendo a qualquer revelia, guardada no fundo do guarda roupa e coberta por papéis e roupas amarrotadas a fim de ser esquecida e amparada das duas violências.// Voltou// ou// Nunca se(cê) foi?// Ou (cê) foi-se falsamente?// Quis partir? Ou ficou só de olho no pequeno feixe de luz que se abriria no instante, que sabia que não tardaria, em que a porta do guarda roupa se abrisse?// Ouviu-se o rangido da porta e... Devastou// Mal o quarto foi arrumado, as louças repostas, os discos e os livros foram dispostos em seu lugar// Retornaram violentamente ao chão gélido// E a caixa?// Correu até ela// Abriu:// "A poesia aprende-se sendo feliz, mas só sabemos quando somos infelizes"// A vista escureceu, não foi possível ver se havia restado algo na caixa// Morreu de sentimentalidade. // Entretanto não se sabe se de fato as sentiu.

terça-feira, 27 de março de 2012

d es enc
on t
ro:

perder-se no(do) outro

nada fica em pé
oco
entregar os pontos
perder-se em lágrimas

reinventa-se
sede de (ser) (de) novo
fazer do pranto força latente


reencontro: outros e também mais do mesmo
encontram-se nos beijos, perdem-se as pernas, as frases,
perde-se a mágoa,
embaralha-se o tempo,
perde-se o vazio,
perde-se do desencontro
ENCONTRAM-SE

Dois pêndulos, doze números

desvencilha
diminui
suporta
engana
paralisa
embaralha
seduz o acaso
afaga a tristeza para apedrejar outra vez

mas não atrave-se a medir forças com o engenhoso tormento
ele passa quando bem quiser.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Atormenta-me sua existência, que veio a despeito da minha vontade, existência que veio sussurando-me a dilacerante verdade: "não há mais paz onde achas que há!"

Atormenta-me teus dias mais curtos que os meus, sua beleza efêmera das maçãs comuns, sua imbecilidade jovial e até tua distância, que deveria aliviar-me, traz mais transtorno e escuridão a melancolia que fez casa no meu peito.

Roubou meus dias, meus lugares, minhas canções, meus gostos, meu último gole de vida. Forçou-me a reinventar-me num curto espaço de tempo.

Anseio pela morte de sua figura com a mesma intensidade que desejo no escuro de cada madrugada o último suspiro desse coração dilacerado meu. Só nós sabemos que não há lugar pra três onde encontram-se dois.

sexta-feira, 9 de março de 2012

"Mandei fazer
De puro aço luminoso punhal
Para matar o meu amor ..."

e morri.

quarta-feira, 17 de março de 2010

18+2

Eu fiz o tal dos 20 e nada mudou. Mudar, mudar não mudou, mas se eu disser que não pesou vai ser uma grandissíssima mentira. A vida adulta que quando mais nova (até ontem) queria tá batendo aqui e eu tô querendo passar ela adiante, quem quer ela nesse instante?
Carro, conta, trânsito, chefe, casa, roupa, papéis, falta de tempo ... Bem que minha mãe avisou que esse momento não ia demorar para acontecer.
Não que eu queira ficar estagnada ou viver enganada achando que não chegou a hora de crescer, mas se puder de alguma forma esperar pelo menos mais cinco minutos para digerir isso tudo eu iria agradecer.

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar