terça-feira, 1 de julho de 2008

O primeiro [de muitos eu espero] conto feito juntamente com uma poeta da envergadura da Josi.



Camila não era vaidosa, mas naquele dia parou em frente ao espelho, sentou sobre a cama e passou a olhar para seus próprios olhos. Notou que ela nunca parou realmente pra olhar para eles e nem para qualquer outro lugar de seu corpo. Passou, então, a procurar desesperadamente qualquer mancha, qualquer sinal que pudesse haver, em tudo, desde os pés até os cotovelos.

Não era curiosidade, era algo muito além: era como uma descoberta. Uma novidade que estava diante de seus olhos, chegou até olhar como se fosse outra pessoa, um corpo completamente desconhecido e estranhamente achou bonito o que viu, mas não era uma beleza manjada, daquelas que via na televisão, era uma beleza de jovem, simplesmente. Uma beleza natural livre de estereótipos e imposições da sociedade ou como as flores do campo que o vento tira para dançar.


Tomada por um súbito, com as pálpebras cerradas de paixão, passou a mãos pelos cabelos e com a tesoura na outra mão, picotou os fios que ficaram não completamente uniformes. Sentiu uma forma cubista em pessoa, como se tudo desmontasse para ser refeito de uma forma totalmente nova.


Colocou os fios dentro de um envelope, com a caneta velha da avó, escreveu de forma decidida o nome do destinatário: Carlos. Nome para o qual tinha desejo há tempos de voltar a escrever, passou a ponta dos dedos na escrita desse nome que sempre significou muito.


Lembrou da cena de quando era criança, e Carlos aos oito anos lhe pediu uma mecha do seu cabelo e ela lhe negou, depois de tanto tempo, como estaria Carlos, um homem de certo. Será que ele entenderia a carta? Será que ele sequer lembraria de Camila? Ou já teria abortado as lembranças de tudo o que viveram?


Passaram-se semanas, todo dia Camila ia até a caixa de correio angustiada, mas não havia nada, nem sequer correspondências de loja para lhe causar falsas esperanças.Ela começou a se achar uma tola por pensar que depois de tantos anos ela poderia reascender uma chama que foi soprada violentamente por ela própria.


Teria ele se mudado? Estaria casado? Morto? Meu Deus, se estivesse morto? Nunca saberia que ela resolveu lhe doar as mechas suplicadas no passado. Começou a definhar em devaneios incansáveis em busca de alguma resposta pra tudo isso, era um deletério que a consumia a distância.


Até que sua mãe a abordou na sala, já estranhando por a ver de toca a semana toda, lhe entregou um pacote ainda mais incógnito. Um pacote pardo envolto em uma fita dourada como aquelas de laços natalinos, o coração de Camila se encheu de todos os sentimentos que lhe eram conhecidos, não havia como descrever em uma só palavra tudo o que sentia ao tocar naquele pacote. Outra leva de sensações lhe açoitaram, mas dessa vez ela podia nomear seus sentimentos: tristeza, saudade, arrependimento, angustia, um aperto no peito desses que parecem ser derradeiro. Conseguiu driblar a mãe e se refugiou no quarto.


Quando abriu o pacote descobriu uma foto de uma criança, um menino, Carlos, igualzinho era quando o viu pela última vez, aos oito anos, mas com a cabeça pelada. Não podia ser só aquilo. Virou a foto e leu: "Eu não sei quem você é, mas meu filho morreu aos oito anos de leucemia, se o conhece, reze por ele, que ele esteja em paz".



sábado, 28 de junho de 2008

Fragmentos de sintonia


15 horas ...

Passos abaixo do sol de inverno
Primeiros risos e palavras de um dia cansativo
Empolgação, felicidade, enfim esse momento
- Me vê um capuccino especial com chantilly, pão de queijo e salgado de de presunto e queijo
- Pra mim um café normal, pão de queijo e um pastel de palmito
- Orgulho é a melhor coisa que se pode ter
- Melhor surpreender do que decepcionar
- Algo não recomendável tranformaram em 'pecado'
- Eu sou imoral
- É por isso que eu não exigo dos outros
- Eu sou ruim
- Nossa é muito engraçado e ridículo
- Ego, super ego, id ... em algum desses
- Eu gosto de provocar
- Ai eu acho vergonhoso
- 'Agente na sala ouvindo Chico Buarque ...'
- Você é ruim mas nem tanto
- E quem disse que maconha faz mal?
- Ah pode falar, todo mundo é assim
- É a sociedade quem coloca isso na mente
- Eu não li tudo que você pensa
- A biblia é uma fábula
- Amor não é, amor é mais forte e difícil do que imaginam
- A mulher tem muito o que ganhar e muitas põe a perder
- Sempre quis uma amiga lésbica
- É terrível depositar todas suas esperanças em algo
- Às vezes você ama e odeia uma mesma pessoa?
- É bom chocar e mexer com a verdade absoluta das pessoas
- Inconstante, constante, inconstante, constante
- É bom pra ser menos tedioso
- Minha mãe ainda tem salvação
- Eu me acho ridícula por sentir isso
- Tudo que eu condenava eu já fiz, TUDO
- As pessoas não acreditam em um deus e sim no que o homem impôs


15h, 16h, 17h, 18h ...
Um suco, um pão de mel
O mel de pode falar sem medo
Elas brincam com as palavras
Jogam, pegam, amassam
Ora efusiva, ora entristecida
Em vários tons, sons e cores


Escurecendo, anoitecendo ...
Palavras soltas, afeto, mais uns passos, um abraço
Tchau.


sábado, 14 de junho de 2008

Bicho de infinitas cabeças

É facílimo falar pra deixar tudo de lado, esquecer problemas, perdoar pessoas, enterrar acontecimentos ... tudo na teoria é bem mais fácil que na vida prática, e nós passamos grande parte do nosso tempo procurando nos conformar falsamente, entrar num paralelo de fantasias pra amenizar o nosso redor.
Nosso cortidiano nos cobra mais a cada segundo que nos hospedamos nele, ele nos cobra pessoas fortes, que triturem ferozmente esses dragões diários, e já no próximo episódio seja puro e casto, e depois cruel, depois grandioso e misericórdioso. Essa hospedagem nos custa caro, vai muito além da troca monetária e de qualquer bem que venhamos a ceder pra ele, ele sempre quer mais, tem fome de tudo que nos pertence, das nossas 24 horas vividas a cada dia, de cada momento por mais banal que seja, e nós também queremos mais dele, vivemos em par nessa nossa promiscuidade suculenta, nessa vontade mútua e gananciosa que nunca é satisfeita. Ele tem o poder aterrorizante de nos deixar despidos e sem alternativas de voltar ao instante de outrora.
Já não nos resta escapatória, não o controlamos por mais que essa vontade seja avassaladora, se tentarmos [todos de certa forma tentamos, mesmo que não admitamos] estaremos lutando com o ar no escuro, inútil e perigoso, e visto de fora insano para quem cessa e finge não ver esse bicho que nos domina e emite um fascínio sedutor que nos aliena e nos deixa a serviço dele.

segunda-feira, 9 de junho de 2008


[Amei e odiei as palavras, espero tê-las usado direito]

[
O mistério me entedia. Dá trabalho. Sei o que acontece, e você também. As maquinações que nos levam até lá é que me irritam, me deixam perplexa, me interessam e me estarrecem.Há muitas coisas em que pensar.Muitas histórias.]

[
Só confiamos nas pessoas em quem temos de confiar.]

[
Os seres humanos me assombram]

[
Primeiro, as cores. Depois, os humanos. Em geral, é assim que vejo as coisas. Ou, pelo menos, é o que tento.]

[Alguns apenas passam por sua vida, outros a acompanham até que não lhes seja mais possível, outros estão mais perto do que parecem.]


[Tive vontade de perguntar , como uma mesma coisa podia ser tão medonha e tão gloriosa, e ter palavras e histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes]

[Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras. Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva.]

quarta-feira, 4 de junho de 2008


Oooooooooh! Oooi!
Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber...

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal...

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...

Oooooooooh! Oh! Oh!
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela...

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...

sábado, 17 de maio de 2008

Mentiras

Nada é realmente como nos ensinaram nos primeiros anos da escola
Tiradentes não foi o grande herói
O Brasil não foi descoberto pelos portugueses
A escravidão não foi abolida
A tortura da ditadura ainda está entre nós

A situação está mais difícil de melhorar quanto supunhamos enquanto crianças, enquanto seres inocentes e cheio de sonhos nesse país sem espaço pra sonhar!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Decadência?

Acabei de ler o livro 'Aos Meus Amigos' e peguei presa a realidade deles, a uma realidade de quem tem meio século de vida e se pega com questionamentos frustrantes ou até mesmo sem questionamentos, sem vontade de alimentar dúvidas, sem ilusões joviais, sem crenças, sem certeza, com vontade a todo custo de se agarrar em algo que não existe mais, ou nem nunca existiu para dar sentindo ao seu derradeiro.
Essa idéia vaga e momentânea que temos movida pelas emoções de que tudo pode ser perfeito e diferente, se trata de ilusionismo, estamos sujeitos a decepções constantemente e automaticamente a escolhas. Escolhemos quem vamos perdoar, quem vamos priorizar, quem vamos abolir, quem vamos condenar, quem vamos nutrir ... temos essa grande responsabilidade e muitas vezes fugimos dessa constatação e não adimitimos isso nem a nós mesmos, por medo, por horror a isso, por desilusão de ver que aquilo que se pregava no passado parece ter tomado uma forma diferente diante de nós e diante dos fatos. É difícil abandonar o que acreditava outrora, perder se em uma nova incógnita, soa tão banal e tão sofrido adimitir isso, mas lá no fundo, nosso individual sabemos da verdade, por mais que seja negada.
Entramos num cenário de melancolia, saudosismo, tudo toma uma forma bucólica, tudo serve de artifício pra não abandonar essa história acabada, esse sonho não mais desejado, esse ardor não mais incendiado, essa utopia não mais acreditava, esse desejo cessado, esse amor não mais pulsante, essa amizade abandonada, esse prazer que não sucumbe mais ...
E esse viver que já não se encontra sentido e tenta procurar algum deseperadamente afim de replicar a enigmática maior de toda essa aventura: 'E há mesmo sentido diante de tudo isso que vivemos?'