sábado, 12 de julho de 2008

Desgastante

A música cansou de propagar
E as vertentes do sim e não já não querer mais continuar
Outra inspiração foi conquistada
Nostalgia já vai saindo pelas entrelinhas
A prosa e poesia realista habitam em mim
As certezas querem se entrelaçar
E repelir toda essa ambigüidade
Que ora enoja e outra encanta
E traz um eu não estimado
Pensamentos obscuros, libidinosos, avassaladores
Incansavelmente ramificados
Subdivididos porcamente e desnexados
Demasiadamente deserto e incerto
Quem derá ouvesse uma constância
Entretanto tudo irá embaralhar
Seja no nascer do sol, ou ao seu pôr
Seja em lençóis, em becos, em solo esverdeado
Em menções ou até naquelas canções
O outrora vai voltar e alinhar a incerteza
Decidido, indeciso
Estruturado, desestruturado
Continuamente impoluto
Pra mim, pra ele (a) e pra você

domingo, 6 de julho de 2008

CAPÍTULO IX / A ÓPERA



Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava.
Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as
injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade.
Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma
princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que
ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes.
Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
--A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
--Mas, meu caro Marcolini...
--Quê...
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no
conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
--Mas, Senhor...
--Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia,
consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
--Ouvi agora alguns ensaios!
--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir
contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a
colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a
música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc.
Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

[Dom Casmurro - Machado de Assis]

terça-feira, 1 de julho de 2008

O primeiro [de muitos eu espero] conto feito juntamente com uma poeta da envergadura da Josi.



Camila não era vaidosa, mas naquele dia parou em frente ao espelho, sentou sobre a cama e passou a olhar para seus próprios olhos. Notou que ela nunca parou realmente pra olhar para eles e nem para qualquer outro lugar de seu corpo. Passou, então, a procurar desesperadamente qualquer mancha, qualquer sinal que pudesse haver, em tudo, desde os pés até os cotovelos.

Não era curiosidade, era algo muito além: era como uma descoberta. Uma novidade que estava diante de seus olhos, chegou até olhar como se fosse outra pessoa, um corpo completamente desconhecido e estranhamente achou bonito o que viu, mas não era uma beleza manjada, daquelas que via na televisão, era uma beleza de jovem, simplesmente. Uma beleza natural livre de estereótipos e imposições da sociedade ou como as flores do campo que o vento tira para dançar.


Tomada por um súbito, com as pálpebras cerradas de paixão, passou a mãos pelos cabelos e com a tesoura na outra mão, picotou os fios que ficaram não completamente uniformes. Sentiu uma forma cubista em pessoa, como se tudo desmontasse para ser refeito de uma forma totalmente nova.


Colocou os fios dentro de um envelope, com a caneta velha da avó, escreveu de forma decidida o nome do destinatário: Carlos. Nome para o qual tinha desejo há tempos de voltar a escrever, passou a ponta dos dedos na escrita desse nome que sempre significou muito.


Lembrou da cena de quando era criança, e Carlos aos oito anos lhe pediu uma mecha do seu cabelo e ela lhe negou, depois de tanto tempo, como estaria Carlos, um homem de certo. Será que ele entenderia a carta? Será que ele sequer lembraria de Camila? Ou já teria abortado as lembranças de tudo o que viveram?


Passaram-se semanas, todo dia Camila ia até a caixa de correio angustiada, mas não havia nada, nem sequer correspondências de loja para lhe causar falsas esperanças.Ela começou a se achar uma tola por pensar que depois de tantos anos ela poderia reascender uma chama que foi soprada violentamente por ela própria.


Teria ele se mudado? Estaria casado? Morto? Meu Deus, se estivesse morto? Nunca saberia que ela resolveu lhe doar as mechas suplicadas no passado. Começou a definhar em devaneios incansáveis em busca de alguma resposta pra tudo isso, era um deletério que a consumia a distância.


Até que sua mãe a abordou na sala, já estranhando por a ver de toca a semana toda, lhe entregou um pacote ainda mais incógnito. Um pacote pardo envolto em uma fita dourada como aquelas de laços natalinos, o coração de Camila se encheu de todos os sentimentos que lhe eram conhecidos, não havia como descrever em uma só palavra tudo o que sentia ao tocar naquele pacote. Outra leva de sensações lhe açoitaram, mas dessa vez ela podia nomear seus sentimentos: tristeza, saudade, arrependimento, angustia, um aperto no peito desses que parecem ser derradeiro. Conseguiu driblar a mãe e se refugiou no quarto.


Quando abriu o pacote descobriu uma foto de uma criança, um menino, Carlos, igualzinho era quando o viu pela última vez, aos oito anos, mas com a cabeça pelada. Não podia ser só aquilo. Virou a foto e leu: "Eu não sei quem você é, mas meu filho morreu aos oito anos de leucemia, se o conhece, reze por ele, que ele esteja em paz".



sábado, 28 de junho de 2008

Fragmentos de sintonia


15 horas ...

Passos abaixo do sol de inverno
Primeiros risos e palavras de um dia cansativo
Empolgação, felicidade, enfim esse momento
- Me vê um capuccino especial com chantilly, pão de queijo e salgado de de presunto e queijo
- Pra mim um café normal, pão de queijo e um pastel de palmito
- Orgulho é a melhor coisa que se pode ter
- Melhor surpreender do que decepcionar
- Algo não recomendável tranformaram em 'pecado'
- Eu sou imoral
- É por isso que eu não exigo dos outros
- Eu sou ruim
- Nossa é muito engraçado e ridículo
- Ego, super ego, id ... em algum desses
- Eu gosto de provocar
- Ai eu acho vergonhoso
- 'Agente na sala ouvindo Chico Buarque ...'
- Você é ruim mas nem tanto
- E quem disse que maconha faz mal?
- Ah pode falar, todo mundo é assim
- É a sociedade quem coloca isso na mente
- Eu não li tudo que você pensa
- A biblia é uma fábula
- Amor não é, amor é mais forte e difícil do que imaginam
- A mulher tem muito o que ganhar e muitas põe a perder
- Sempre quis uma amiga lésbica
- É terrível depositar todas suas esperanças em algo
- Às vezes você ama e odeia uma mesma pessoa?
- É bom chocar e mexer com a verdade absoluta das pessoas
- Inconstante, constante, inconstante, constante
- É bom pra ser menos tedioso
- Minha mãe ainda tem salvação
- Eu me acho ridícula por sentir isso
- Tudo que eu condenava eu já fiz, TUDO
- As pessoas não acreditam em um deus e sim no que o homem impôs


15h, 16h, 17h, 18h ...
Um suco, um pão de mel
O mel de pode falar sem medo
Elas brincam com as palavras
Jogam, pegam, amassam
Ora efusiva, ora entristecida
Em vários tons, sons e cores


Escurecendo, anoitecendo ...
Palavras soltas, afeto, mais uns passos, um abraço
Tchau.


sábado, 14 de junho de 2008

Bicho de infinitas cabeças

É facílimo falar pra deixar tudo de lado, esquecer problemas, perdoar pessoas, enterrar acontecimentos ... tudo na teoria é bem mais fácil que na vida prática, e nós passamos grande parte do nosso tempo procurando nos conformar falsamente, entrar num paralelo de fantasias pra amenizar o nosso redor.
Nosso cortidiano nos cobra mais a cada segundo que nos hospedamos nele, ele nos cobra pessoas fortes, que triturem ferozmente esses dragões diários, e já no próximo episódio seja puro e casto, e depois cruel, depois grandioso e misericórdioso. Essa hospedagem nos custa caro, vai muito além da troca monetária e de qualquer bem que venhamos a ceder pra ele, ele sempre quer mais, tem fome de tudo que nos pertence, das nossas 24 horas vividas a cada dia, de cada momento por mais banal que seja, e nós também queremos mais dele, vivemos em par nessa nossa promiscuidade suculenta, nessa vontade mútua e gananciosa que nunca é satisfeita. Ele tem o poder aterrorizante de nos deixar despidos e sem alternativas de voltar ao instante de outrora.
Já não nos resta escapatória, não o controlamos por mais que essa vontade seja avassaladora, se tentarmos [todos de certa forma tentamos, mesmo que não admitamos] estaremos lutando com o ar no escuro, inútil e perigoso, e visto de fora insano para quem cessa e finge não ver esse bicho que nos domina e emite um fascínio sedutor que nos aliena e nos deixa a serviço dele.

segunda-feira, 9 de junho de 2008


[Amei e odiei as palavras, espero tê-las usado direito]

[
O mistério me entedia. Dá trabalho. Sei o que acontece, e você também. As maquinações que nos levam até lá é que me irritam, me deixam perplexa, me interessam e me estarrecem.Há muitas coisas em que pensar.Muitas histórias.]

[
Só confiamos nas pessoas em quem temos de confiar.]

[
Os seres humanos me assombram]

[
Primeiro, as cores. Depois, os humanos. Em geral, é assim que vejo as coisas. Ou, pelo menos, é o que tento.]

[Alguns apenas passam por sua vida, outros a acompanham até que não lhes seja mais possível, outros estão mais perto do que parecem.]


[Tive vontade de perguntar , como uma mesma coisa podia ser tão medonha e tão gloriosa, e ter palavras e histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes]

[Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras. Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva.]

quarta-feira, 4 de junho de 2008


Oooooooooh! Oooi!
Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber...

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal...

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...

Oooooooooh! Oh! Oh!
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela...

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar...

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!...